A História do Tabuleiro Ouija

O que acontece após a morte?

Você pode ser ateu, mas com certeza já se fez essa pergunta. Nada de trabalho, sucesso ou amor, o grande dilema da existência humana é o fato de que estamos todos fadados a um fim.

Que ideia estranha, não? Estranha e assustadora! Nós somos um oceano tão profundo de possibilidades, cheios de sonhos, angústias e complexos… Qual o sentido de tudo isso, se em algum momento vai acabar e ser como se nunca tivesse existido? Quer dizer, você não vai mais existir… Será, no máximo, uma memória. Já parou pra pensar no quanto isso é doido?

Talvez sejam esses questionamentos que fazem com que estejamos sempre atrás de uma resposta para o mistério da morte. Nós não a aceitamos. E como poderíamos? Será que não há mesmo nada além?

A própria experiência humana ao longo das eras parece indicar o contrário. Em praticamente todas as culturas existe alguma crença a respeito do pós-morte. Fantasmas e aparições encontram ecos e relatos nos quatro cantos do mundo e em todos os lugares as pessoas encontraram formas de se relacionar com o pós-vida. O tabuleiro Ouija é uma delas.

Muito já se falou dessa ferramenta, bem como de suas correlatas — a brincadeira do copo, o jogo do compasso etc. Eu mesmo, quando ainda bem jovem e dando os primeiros sinais de uma, digamos, sensibilidade apurada demais para o “outro lado”, fui levado pela minha mãe a uma médium que contactava o mundo espiritual por meio das letras do alfabeto e de um copo que se movia pela mesa (um dia eu conto essa história melhor, prometo); mas você sabe a história do Tabuleiro Ouija? Quero dizer, como tudo começou?

Foi lá pelo século dezenove.

Aquele foi um momento particularmente espiritual da nossa história, o que, devemos dizer, é bastante irônico, já que aconteceu depois do Iluminismo e coincidiu com movimentos como o Racionalismo, o Positivismo e a Revolução Industrial.

Se você quer saber a minha opinião, eu acho que esse foi um grito de socorro da nossa alma, antes dela se afogar de vez no ceticismo e no materialismo contemporâneo… Enfim, o fato é que muitos ocultistas de renome viveram no século XIX. Pessoas como Éliphas Lévi, Papus, Aleister Crowley e Helena Blavatsky, todos grandes pensadores do oculto, nasceram ou viveram de alguma forma no século XIX e ajudaram a formar o que conhecemos como o imaginário vitoriano. Nascidas nos Estados Unidos, as Irmãs Fox também fizeram parte desse movimento e são consideradas personagens importantíssimas na gênese do espiritualismo contemporâneo.

Falaremos mais dessas irmãs em outra oportunidade. Por hora, basta entendermos que, ainda muito jovens, elas enfrentaram fenômenos paranormais e assombrações em sua casa. A história do Tabuleiro Ouija está intimamente ligada à delas, porque, em dado momento, uma das irmãs começou a se comunicar com um dos espíritos que assombravam sua casa por meio de batidas; batidas na parede, em cima de certas letras de um alfabeto pintado, de maneira a formar frases. Foi assim que tudo começou.

Quando a história se espalhou, parecia que um novo oráculo havia sido criado; um oráculo necromântico perfeito, que permitia às pessoas, sem o auxílio de um médium, interpelarem os espíritos e se comunicarem com seus entes queridos falecidos. Naquele tempo, médiuns eram muito requisitados nos EUA e isso havia se tornado uma espécie de comércio, bastante lucrativo. Foi o suficiente para dar a um jovem advogado e empreendedor a ideia de transformar o “oráculo” das Irmãs Fox em um produto.

Elijah Bond

O nome dele era Elijah Bond, reconhecido como um inventor e considerado o pai do Tabuleiro Ouija. A prova disso é que seu túmulo, em Baltimore, Maryland, tem a lápide no divertido e inusitado formato de um Tabuleiro Ouija. Em algum momento, porém, essa autoria fica um pouco nebulosa e o nome de William Fuld também aparece como inventor do Ouija. Honestamente, não sei a qual dos dois creditar a invenção. A única verdade incontestável é que nenhum dos dois foi responsável pela ideia original, que, como já dissemos, veio das Irmãs Fox, nem pelo próprio nome “Ouija”, que, pelo que parece, deve-se à cunhada de Bond, Helen Peters.

Sobre esse nome, há uma anedota bastante interessante. A palavra “ouija”, até onde se sabe, não tem nenhum significado nem veio de idioma nenhum. Dizem que teria sido soletrada pelo próprio tabuleiro, quando o consultaram a respeito de como gostaria de ser chamado. Outra versão, porém, dá conta de que Helen era simpática aos ideais feministas e estaria usando, no momento da patente, um pingente com a foto de Ouida, pseudônimo da escritora inglesa Maria Louise Ramé. Ela teria, assim, batizado o jogo com o nome da sua escritora preferida.

A Escritora Britânica Ouida

A curiosidade bizarra nisso é que podemos perceber que a história do Ouija enquanto produto é a história da apropriação e da exploração comercial das ideias de algumas mulheres por dois homens, Bond e Fuld. O nome Ouija pegou com tanta força que hoje é indissociável do pitoresco tabuleiro usado para falar com os mortos e, em 2016, foi usado para dar título ao famoso filme de Mike Flanagan (outro homem), Ouija: origin of evil.

Hoje em dia, céticos explicam o fenômeno do movimento da agulha no tabuleiro (que aponta as letras), bem como do copo e do compasso, com o chamado Efeito Ideomotor, nomeado assim pelo cientista William Carpenter. Trata-se de movimentos corporais quase imperceptíveis, involuntários e inconscientes, motivados por sugestão. Quer dizer, se você estiver concentrado em alguma coisa, como uma letra do tabuleiro, seu cérebro produzirá micromovimentos musculares imperceptíveis que guiarão sua mão até essa letra, mesmo que você não esteja provocando isso deliberadamente. Essa também seria a explicação científica para os fenômenos radiestésicos, como o movimento de pêndulos e de varinhas para localizar água.

Vou tomar a liberdade de inserir minha opinião aqui novamente, tá? Varinhas são usadas para localizar água no subterrâneo há muito tempo, pelo menos desde a Roma Antiga… e esse método funciona! Então não digo que os cientistas e o “efeito ideomotor” estejam errados, mas as teorias de Jung e Freud, por exemplo, dão conta de que ainda sabemos muito pouco sobre as realidades inconscientes. Jung, então, fala de um “Inconsciente Coletivo”, em que os inconscientes de todos nós estariam numa espécie de ligação telepática, trocando informação o tempo todo…

Xilogravura representando um homem usando rabdomancia (as varinhas radiestésicas) para localizar veios subterrâneos de água.

E se o tal efeito ideomotor estiver, de alguma maneira, ligado a isso? E se não estivermos conectados apenas ao inconsciente das outras pessoas, mas de todas as formas vivas ao nosso redor, inclusive a “alma do mundo” e o mundo dos espíritos? A explicação científica ainda seria válida, mas sem descartar o contato sutil com o espiritual, proposto pelo Ouija e outros métodos, certo?

Diga aí, o que você pensa a respeito disso? Vamos trocar uma ideia!

1 comentário em “A História do Tabuleiro Ouija”

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